Bebê prematuro: por que a avaliação da audição pode precisar ir além do teste da orelhinha?
Leia o artigo
Quando o assunto é fatores de risco para perda auditiva no bebê, a prematuridade quase sempre aparece na lista. Mas um ponto costuma passar despercebido: isoladamente, o nascimento antes das 37 semanas não é o que aumenta o risco de uma alteração auditiva. Na verdade, as condições que levaram a esse parto prematuro é que precisam ser analisadas. Isso não significa que todo bebê prematuro terá uma alteração auditiva. A questão é outra: a história clínica que acompanha aquele nascimento pode indicar a necessidade de um acompanhamento auditivo mais cuidadoso.
Isso acontece porque boa parte dos bebês prematuros passa por internação em UTI neonatal, uso de medicações ototóxicas, ventilação mecânica ou infecções congênitas. Esses fatores têm relação direta e bem documentada com o risco de perda auditiva. A prematuridade funciona, portanto, mais como um marcador do que como uma causa: geralmente sinaliza a presença de outras condições que merecem atenção.
É por isso que a avaliação da audição do bebê não termina necessariamente com o teste da orelhinha. Apesar de extremamente importante, o teste da orelhinha é só o primeiro passo de um importante acompanhamento auditivo que deve ocorrer durante todo o desenvolvimento infantil.
O que a prematuridade tem a ver com a audição?
Bebês que nascem antes do tempo esperado podem apresentar diferentes condições clínicas que exigem cuidados intensivos. Dependendo da situação, podem permanecer por períodos prolongados em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI), precisar de ventilação mecânica, receber determinados medicamentos ou apresentar complicações como hiperbilirrubinemia, asfixia ou infecções.Esses fatores são importantes porque alguns deles estão associados a um maior risco de alterações auditivas. Existem classificações reconhecidas internacionalmente que reúnem os chamados indicadores de risco para a deficiência auditiva, condições que, quando presentes, aumentam a chance de o bebê apresentar alguma alteração na audição. Essas classificações têm como referência o Joint Committee on Infant Hearing (JCIH), comitê internacional que orienta os principais programas de triagem auditiva neonatal ao redor do mundo.
No Brasil, essas diretrizes foram incorporadas e atualizadas pelo Ministério da Saúde, que em novembro de 2025 publicou o novo Guia Nacional da Triagem Auditiva Neonatal, organizando os indicadores em dois grandes grupos, de acordo com o tipo de perda auditiva mais associado a cada um: um primeiro grupo mais ligado a infecções congênitas (como sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus, rubéola e Zika), uso de medicamentos ototóxicos, malformações craniofaciais e histórico familiar de surdez genética; e um segundo grupo mais associado a fatores como permanência em UTI neonatal por mais de cinco dias, baixo peso ao nascer, hiperbilirrubinemia com necessidade de exsanguineotransfusão e uso prolongado de ventilação mecânica, condições que se relacionam com um tipo específico de alteração auditiva (a chamada neuropatia auditiva), que pode passar despercebida em exames mais simples.
Essa distinção não é apenas teórica: é ela que determina qual exame é mais adequado para cada bebê. Por isso, quando se fala em prematuridade e perda auditiva, é importante olhar para além da idade gestacional. É a combinação entre a história do nascimento, as condições clínicas e os fatores de risco presentes que ajuda a definir como a audição deve ser acompanhada.
O teste da orelhinha é fundamental, mas não conta toda a história
A Triagem Auditiva Neonatal, conhecida como teste da orelhinha, é uma ferramenta essencial para identificar precocemente alterações auditivas. Ela deve ser realizada nos primeiros dias de vida e permite identificar bebês que precisam de uma investigação mais aprofundada.Mas é importante compreender o que o exame representa.
A triagem funciona como uma avaliação da audição naquele momento. Um resultado satisfatório é uma informação muito importante, mas, em bebês que apresentam determinados indicadores de risco, não significa necessariamente que o acompanhamento auditivo possa ser encerrado.
Isso acontece porque algumas perdas auditivas podem surgir posteriormente, ser progressivas ou não ser identificadas pela triagem neonatal. As recomendações do JCIH ressaltam justamente a necessidade de acompanhamento de crianças que passaram na triagem, mas apresentam fatores associados ao risco de perda auditiva de início tardio.
O Ministério da Saúde também destaca que a triagem auditiva neonatal é uma estratégia para identificar precocemente alterações, mas que o seguimento deve considerar os indicadores de risco e o desenvolvimento auditivo e de linguagem da criança.
O citomegalovírus congênito é um exemplo especialmente importante porque pode estar associado à perda auditiva neurossensorial e à evolução tardia da alteração. Estudos mostram que crianças com infecção congênita por CMV podem desenvolver perda auditiva mesmo quando a infecção não provoca manifestações evidentes ao nascimento.
A sífilis congênita também está entre os indicadores de risco reconhecidos. Estudos encontraram associação entre sífilis congênita e alterações na triagem auditiva neonatal, reforçando a importância do acompanhamento dessas crianças.
Isso mostra por que não é adequado avaliar todos os bebês prematuros da mesma maneira. O histórico clínico individual orienta a estratégia de avaliação.
Emissões otoacústicas ou BERA: qual exame o bebê precisa?
Uma das dúvidas mais comuns das famílias é entender por que qual o exame mais indicado para avaliar a audição do bebê.A resposta depende do que se pretende investigar.
As emissões otoacústicas avaliam respostas produzidas pela cóclea após a apresentação de estímulos sonoros e são utilizadas tanto na triagem quanto como parte da avaliação audiológica de bebês com indicadores de risco.
Mas, para bebês com indicadores de risco mais associados a alterações na via auditiva central, como aqueles que passaram por hiperbilirrubinemia mais grave, esse exame pode não ser suficiente sozinho. Recomenda-se, nesses casos, associar o Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE, também chamado de BERA), capaz de avaliar a via auditiva, da cóclea até o tronco encefálico. É esse exame deve sempre ser realizado por frequência especifíca e associado a aimitnaciometria e às emissões otoacústicas.
Assim, não existe necessariamente um único exame que seja indicado para todos os bebês. A escolha depende da idade, das condições clínicas, dos resultados anteriores e dos fatores de risco presentes.
Acompanhar a audição também é acompanhar o desenvolvimento
O cuidado não termina quando o exame apresenta um resultado satisfatório. Durante os primeiros anos de vida, é importante observar também os marcos do desenvolvimento auditivo, da fala e da linguagem.A criança reage aos sons? Reconhece vozes? Demonstra interesse por diferentes estímulos sonoros? Começa a balbuciar e desenvolver formas de comunicação esperadas para sua idade?
Essas observações fazem parte do acompanhamento e podem indicar a necessidade de uma nova avaliação.
Para a fonoaudiologia, olhar para a audição significa também compreender como a criança está desenvolvendo suas habilidades de comunicação. Afinal, ouvir tem papel fundamental no desenvolvimento das habilidades auditivas, da fala e da linguagem e, para crianças que desenvolvem linguagem oral, na construção da comunicação.
Essa etapa não é só uma formalidade técnica. Os primeiros meses e anos de vida são um período de intensa plasticidade cerebral: é quando o cérebro tem maior capacidade de se adaptar e formar as conexões responsáveis pelo desenvolvimento da linguagem e da cognição. Identificar uma alteração auditiva dentro dessa janela, e não anos depois, muda de forma significativa as chances de reabilitação e os resultados que a criança pode alcançar no desenvolvimento da fala e da audição a longo prazo.
Na Fonotom, contamos com os diferentes exames disponíveis atualmente e adequamos a avaliação de acordo com o histórico de cada bebê, sem aplicar um protocolo único para todos os casos.
Cada bebê precisa de um acompanhamento individualizado
A história de um nascimento prematuro pode envolver diferentes fatores, e cada um deles pode modificar a forma como a audição deve ser acompanhada. Por isso, a avaliação audiológica não deve ser baseada apenas na pergunta “passou ou não passou no teste da orelhinha?”.É preciso perguntar também: quais foram as condições clínicas desse bebê? Quais fatores de risco estavam presentes? Qual exame é mais adequado para investigá-los? E como a audição está evoluindo ao longo do desenvolvimento?
Na prática, isso pode significar realizar emissões otoacústicas, BERA/PEATE ou outros exames audiológicos, conforme a necessidade identificada pelo profissional.
Na Fonotom, a avaliação é planejada de acordo com as características e a história clínica de cada paciente, permitindo acompanhar a audição desde os primeiros momentos da vida e indicar os exames mais adequados para cada situação, incluindo a audiometria condicionada - padrão ouro a partir dos 6 meses de vida.
O teste da orelhinha é um passo essencial. O acompanhamento é o que permite continuar cuidando da audição.
Se o seu bebê nasceu prematuro ou apresenta algum indicador de risco para perda auditiva, procure uma avaliação fonoaudiológica especializada. O acompanhamento precoce ajuda a identificar possíveis alterações e permite agir no momento mais adequado para favorecer o desenvolvimento auditivo e da comunicação.
Na Fonotom, acompanhamos bebês prematuros e com indicadores de risco para perda auditiva, com exames adequados a cada caso e reavaliações programadas conforme a necessidade. Todos os protocolos são baseados nos protocolos internacionais e seguindo o principio do cross-checking.
Se seu bebê nasceu prematuro ou passou pela UTI neonatal, agende uma avaliação com nossa equipe.