Entenda a relação entre sífilis e perda auditiva e como tratar o problema

Estudos recentes confirmam que a sífilis pode comprometer a audição em diferentes fases da vida, exigindo diagnóstico precoce e acompanhamento fonoaudiológico para reduzir sequelas e garantir qualidade de vida.

sifilis

A sífilis é uma infecção bacteriana antiga, mas ainda atual e desafiadora, causada pelo Treponema pallidum. Reconhecida historicamente por suas manifestações cutâneas e genitais, a doença é muito mais complexa do que aparenta, capaz de afetar múltiplos órgãos e sistemas quando não diagnosticada e tratada a tempo. Nos últimos anos, pesquisas científicas vêm chamando a atenção para um aspecto menos discutido da enfermidade: a sua relação com perdas auditivas, que podem se manifestar tanto em adultos quanto em recém-nascidos expostos à infecção materna.

Longe de ser apenas uma infecção sexualmente transmissível (IST) que afeta a pele e as mucosas, a progressão silenciosa e insidiosa da sífilis pode comprometer múltiplos sistemas do corpo, incluindo o complexo e delicado aparelho auditivo. A neurossífilis, uma forma avançada da doença, é a grande vilã por trás dessa devastadora complicação, levando a uma variedade de deficiências auditivas, que podem variar de leves a profundas.

A importância de compreender essa correlação vai muito além de um mero dado clínico. Ela se traduz em uma necessidade urgente de conscientização e ação por parte de profissionais da saúde e da população em geral. A perda auditiva induzida pela sífilis, se não diagnosticada e tratada a tempo, pode ser irreversível, impactando a comunicação, a vida social e a saúde mental do indivíduo. É uma realidade que exige atenção, pesquisa e, acima de tudo, um esforço coletivo para mitigar seus danos.

Dados recentes reforçam essa preocupação. Um levantamento publicado em 2024 na revista PLOS ONE reuniu estudos sobre sífilis congênita e destacou a associação com perdas auditivas, alertando para a necessidade de rastreio sistemático desses pacientes. Segundo os autores, há relatos consistentes de déficits auditivos tanto em crianças diagnosticadas ao nascer quanto em adolescentes e adultos que tiveram a infecção nos primeiros anos de vida, reforçando o caráter persistente e, muitas vezes, silencioso das sequelas da doença para a audição.

O impacto da doença também se revela em estatísticas globais. De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), somente em 2022 foram notificados mais de 3.700 casos de sífilis congênita no país, o maior número em mais de duas décadas, e cerca de 90% deles poderiam ter sido prevenidos com diagnóstico e tratamento adequados durante a gestação (CDC, 2023). Esses dados ilustram como falhas na identificação precoce ainda perpetuam consequências graves, entre elas a perda da audição.

Como a sífilis impacta a audição? O primeiro estágio, ou sífilis primária, é caracterizado pelo surgimento de uma lesão única e indolor, o cancro duro, que geralmente aparece no local da infecção. Esta lesão desaparece espontaneamente, muitas vezes levando o indivíduo a crer que a doença foi curada, quando na verdade, a bactéria está se espalhando pelo corpo.

Na sífilis secundária, a bactéria já circulou e pode provocar erupções cutâneas, lesões na boca e na garganta, além de febre e mal-estar. A sífilis latente, que pode durar anos, é assintomática, mas a bactéria permanece viva no corpo. Finalmente, se não tratada, a sífilis pode evoluir para o estágio terciário, o mais grave, capaz de causar danos neurológicos, cardiovasculares e em outros órgãos. É neste ponto que a neurossífilis e suas manifestações, incluindo a perda auditiva, se tornam uma ameaça real e iminente.

O mecanismo que liga sífilis e comprometimento auditivo é multifatorial. Quando a infecção atinge o sistema nervoso central pode provocar inflamação do nervo auditivo e das estruturas do ouvido interno. Esse processo inflamatório, associado a alterações vasculares e imunológicas, leva à deterioração das células ciliadas da cóclea, responsáveis pela captação dos sons. O resultado é uma perda auditiva do tipo sensorioneural, que varia de súbita e potencialmente reversível a progressiva e irreversível, dependendo do tempo decorrido até o início do tratamento. Além da surdez, sintomas como zumbido constante, sensação de ouvido tampado e vertigem também são frequentes em pessoas com otosyfilis, denominação dada ao comprometimento auditivo relacionado à doença.

Um aspecto que merece especial atenção é a infância. Crianças expostas à sífilis na gestação podem apresentar falhas nos testes de triagem auditiva neonatal, mesmo quando não há sinais clínicos evidentes da infecção. Estudos realizados no Brasil indicam maior risco de falha nesses exames entre recém-nascidos com sífilis congênita, o que torna o acompanhamento fonoaudiológico fundamental já nos primeiros meses de vida. O problema é que, muitas vezes, os sintomas auditivos não se manifestam de imediato, surgindo apenas anos depois. O Joint Committee on Infant Hearing (2019) orienta que os bebês que nascem com sífilis devem ter a audição monitorada nos primeiros anos de vida, o que reforça a importância de um acompanhamento contínuo e sistemático com o fonoaudiólogo durante a infância.

A manifestação da perda auditiva pode ser súbita ou progressiva, unilateral ou bilateral, e frequentemente vem acompanhada de outros sintomas, como o zumbido (tinnitus), a sensação de ouvido entupido e vertigens, que podem ser incapacitantes. A gravidade da perda auditiva varia, e é crucial ressaltar que ela pode ocorrer em qualquer estágio da doença, mas é mais comum nas fases avançadas. A prevalência de perda auditiva neurossensorial em pacientes com neurossífilis pode chegar a 40%, evidenciando a necessidade de uma triagem auditiva rotineira para essa população, com exames audiológicos frequentes capazes de identificar o problema precocemente.

O quadro clínico da perda auditiva por sífilis pode ser confundido com outras condições. Por isso, é vital que pacientes com diagnóstico de sífilis ou com histórico de exposição estejam atentos a sinais como:

Perda auditiva súbita: menos comum, mas é preciso estar atento a qualquer mudança repentina na audição.

Diminuição da acuidade auditiva: dificuldade em ouvir conversas, sons de alta frequência ou necessidade de aumentar o volume da TV e do rádio.

Zumbido (tinnitus): som persistente nos ouvidos, que pode se assemelhar a um chiado, apito ou ruído de cigarra.

Vertigem e tontura: sensação de desequilíbrio ou de que o ambiente está girando, que pode ser acompanhada de náuseas.

Sensação de ouvido entupido ou pressão no ouvido.

A presença desses sintomas em pacientes com sífilis, mesmo aqueles em tratamento, deve ser um sinal de alerta para buscar uma avaliação especializada.

Diagnóstico e tratamento da perda auditiva relacionada à sífilis O diagnóstico da perda auditiva causada pela sífilis exige uma investigação detalhada. Além da confirmação da infecção por meio de testes sorológicos, é o fonoaudiólogo quem realiza a avaliação auditiva completa. Exames como audiometria tonal e logoaudiometria permitem identificar o grau e a configuração da perda auditiva em adultos e crianças maiores. Em bebês e lactentes, testes objetivos como as emissões otoacústicas (EOA) e o potencial evocado auditivo de tronco encefálico (PEATE/ABR) são indispensáveis para detectar alterações precoces, muitas vezes antes mesmo que os pais percebam qualquer sinal clínico. O acompanhamento seriado, ao longo dos meses ou anos, possibilita avaliar a evolução da audição e o impacto do tratamento da infecção sobre a função auditiva.

Quando a perda auditiva já está estabelecida, deve-se dar início a reabilitação auditiva conduzida pelo fonoaudiólogo. A negligência em buscar a avaliação audiológica pode resultar na perda de uma janela de oportunidade para o tratamento adequado, levando a um impacto significativo na qualidade de vida do paciente. Portanto, a recomendação é clara e imperativa: a suspeita ou o diagnóstico de sífilis, especialmente com a presença de sintomas auditivos, exige a imediata procura por um fonoaudiólogo especializado.

A relação entre sífilis e perda auditiva é, portanto, um alerta duplo: de um lado, evidencia a necessidade de reforçar as políticas de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento oportuno da infecção; de outro, coloca em destaque o papel estratégico do fonoaudiólogo na linha de frente do cuidado auditivo. Reconhecer essa conexão pouco discutida é um passo essencial para garantir que menos pessoas sofram com sequelas evitáveis e que mais indivíduos tenham acesso ao direito fundamental à comunicação plena.

A vigilância, o diagnóstico precoce e a abordagem multidisciplinar, com a participação ativa do fonoaudiólogo, são as chaves para mitigar os danos e preservar a qualidade de vida em todas as idades.
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